09 fevereiro 2006

Ainda não estou morto!

(Monthy Python, Holly Grail)

31 janeiro 2006

Ser doméstico

Afinal, sou doméstico. Fui ao banco para criar uma conta para a minha filha (que já tem número de contribuinte e tudo. Deve ser para descontar as fraldas no IRS!) e descobri essa verdade. Não sou desempregado, porque isso implicaria o envio dos papéis para o Banco de Portugal (BP) e autorização da entidade para efectuar a primeira acção capitalista da bebé que acabei de adormecer.

Quando me dirigi ao balcão na manhã de segunda-feira, dia 30 de Janeiro (aquele dia que vai ficar para os anais da história como: o dia pós-neve. Por falar nisso, eu que já tinha ido à Serra da Estrela de propósito para ver neve e não a tinha enxergado, acabei por ver a partir da janela da minha casa, que dista uns míseros quilómetros do rio Sado)…

Regressemos, quando fui ao banco, atendeu-me um Sr. muito simpático e despachado que me informou de tudo. Porém, quando chegou à parte do comprovativo de emprego, eu fui sincero e disse: «Estou desempregado!». Ao que ele respondeu: «Eu não ouvi isso! O que ouvi (e é o que o Sr. vai colocar no lugar respectivo) é que o Sr. é doméstico/dono-de-casa.»

Depois explicou-me aquilo do BP (não consigo reproduzir a explicação, pelo simples facto que cristalizei aquela palavra: doméstico. Desde que estou desempregado já fui tratado por freelancer e desocupado. Agora doméstico… devia mudar o nome do blog para Pai e Doméstico, aceitam-se opiniões. Basta comentar!).

Infinito


29 janeiro 2006

Muda-fraldas em WCs masculinos

Surpreenderam-me. Sim senhor, aquilo é que foi uma boa surpresa. Mal se entra, dá-se logo com ela. O MacDonalds de Palmela (não, não sou patrocinado por eles, mas tinha de dizer o nome para parecer ainda mais fidedigno) tem um muda-fraldas no WC masculino. É verdade!

Mal entrei no espaço sanitário deparei-me com um gajo de cara estranha, com umas olheiras enormes e cara de cansado (eu, reflectido no espelho). Recuperado do susto, o meu olhar fixa-se noutro reflexo. Não queria acreditar, mas eis que sim: um muda-fraldas no WC dos homens (fiquei parvo, porque saio pouco e os escassos restaurantes a que tenho ido, não têm tal utensílio indispensável para pais em viagem. Aliás, fui a um em que nos sugeriram trocar a fralda da minha filha no lavatório!)

Queria aproveitar este espaço para elogiar aquele restaurante por tal iniciativa (não, continuo a afirmar que não sou patrocinado pelo MacDonalds. Mas se eles me apresentarem uma proposta…). Na realidade é muito difícil encontrar espaços para mudar as fraldas aos bebés, principalmente em restaurantes, e ainda mais raro é encontrar muda-fraldas no WC dos homens.

E se a mãe tem uma dor nas costas? E se é um pai solteiro/divorciado? Vão os homens de escantilhão para o WC das mulheres e estarem sujeitos a agressões verbais e de malas super-pesadas? Será que os espaços comerciais têm um seguro a prevenir danos aos pais que entram nas casas-de-banho femininas para trocarem fraldas? O que vale é que alguns centros comerciais resolveram bem a situação, ao colocarem um fraldário. Porque é que os restaurantes não seguem este exemplo?

25 janeiro 2006

Uma aventura de fraldas

Ontem a minha filha teve a primeira diarreia. Há um mês foi obstipação, ontem foi o inverso. A princípio, quando me deparei com uma fralda imensa, não dei muita importância: «Se calhar foi do iogurte que ela comeu a meio da manhã!» Mas, quando ela teve uma segunda fralda ainda maior, que até sujou body, calças interiores e babygrow, isso preocupou-me.

«O que faço?», foi logo a primeira pergunta a surgir. Respirei fundo (claro que só o consegui fazer depois de tentar tudo por tudo para que a minha filha não tirasse a fralda, pusesse as mãos ou os pés, pegasse nos dodots e nas compressas de não-tecido. Mas ainda não tinha acontecido a cereja sobre o bolo: fralda suja no meio do chão e uma gata a tentar cheirá-la. ARGH!), deitei-a (ela estava acordada há três horas, nada normal para aquela altura do dia) e comecei a pensar.

Primeiro, telefonar aos pais e sogros (eles já tiveram bebés…). Segundo, o mundo maravilhoso da Internet (a grande enciclopédia). Por último, SMS para a médica com dados mais concretos (interromper um médico com dados básicos, não é uma boa estratégia. Descobri isso à minha custa!). Resultado, evitar produtos com lactose, muitos líquidos, papa de arroz e canja de galinha (sem gorduras nem sal) com cenoura.

Bem dito, bem feito. Fui fazer uma canja (coisa que nunca tinha feito. Telefonei à minha mãe…). Pouca água, muito arroz, uma cenoura? Não, não foi isso que me disseram… Mas foi o que fiz. De canja passou a um simples arroz de cenoura com frango cozido. Entretanto, chegou a minha mulher com a papa de arroz, a minha filha acordou, lanchou a custo (o que vale é que na farmácia disseram para pôr um pouco de açúcar na papa) e depois lá comeu o insípido arroz de cenoura com galinha ao jantar.

Até agora, ainda não fez nada. Dormiu bem à noite (o que não aconteceu ontem), acordou bem disposta (acorda sempre, é o que nos vale) e pronta para mais um dia de brincadeiras… Vou experimentar dar-lhe a comida normal, à excepção do iogurte, de tangerina e de pêra.

Digamos que ontem foi um dia diferente, mas que me serviu de aprendizagem. É como se costuma dizer: ser pai é um work in progress (aliás como tudo…).

Liberdade


23 janeiro 2006

Teletrabalho sem apoios

«O único programa que permitia às empresas inscreverem-se e receber benefícios fiscais para contratar pessoas em regime de teletrabalho, acabou o ano passado», disse com simpatia (sem ironias, a senhora foi mesmo simpática) a senhora do Centro de Emprego. «Agora só pessoas com deficiências», acrescentou, deixando-me de boca aberta a olhar para a minha filha e com um telemóvel na mão.

O pior disto tudo foi a resposta à pergunta básica: Porquê? «Porque houve poucas empresas a aderirem a este programa, ou quase nenhumas, e o Estado decidiu cancelar o programa.» Ou seja, como as empresas portuguesas preferem criar cartões para controlar as idas às casas-de-banho, do que ter um profissional produtivo a trabalhar a cem quilómetros das tais casas-de-banho, o Estado decide acabar com a única ferramenta que era capaz de mudar um pouco as mentalidades dos senhores inspectores (desculpem, empresários. Onde ando eu com a cabeça!).

Claro que isto foi à terceira tentativa… Explico. Há cerca de duas semanas convidaram-me do Centro de Emprego para ir saber que coisa era aquela dos Estágios na Administração Pública. Como bom desempregado, lá fui ver que coisa era aquela que só serve para tapar os olhos às pessoas que vêem as estatísticas do desemprego nos órgãos de Comunicação Social.

Chegado lá, apresentaram-me um dossiê com um molho de páginas para eu ver, o site do Instituto de Emprego e Formação Profissional (uma verdadeira aventura para os mais distraídos e não só. É incrível como se consegue complicar o que de si já é complicado.) e outros que tais. Assustado (mas com as antenas ainda no lugar), lembrei-me de perguntar ao senhor que lá estava se havia apoios para quem quisesse trabalhar em casa e apoiar a família.

Espantado com a pergunta, tentou ajudar-me a perceber o que é incompreensível: o site do IEFP (se repito isto, é porque o site é mesmo mau). Passado algum tempo (o que para mim é muito. Desde que tive a minha filha “algum tempo” é igual a “muito tempo”.), sugeriu-me passar na Câmara de Palmela para falar com ele e tentar resolver melhor a situação, porque naquele momento não me podia ajudar.

Foi o que fiz. Apareci na CMP no dia combinado e ele lá telefonou para o Centro de Emprego. Soube um nome, passou-mo e disse-me que bastava ir lá e marcar uma reunião individual com a tal Dra. (curioso que no Centro de Emprego são todas Dras. Mais curioso, a única pessoa que me esclareceu não era Dra…). Fui, marquei, soube que a reunião era colectiva e que já tinha ido a uma (não pude desmarcar porque entretanto o Centro fechou), mas consegui falar com a Dra, que me encaminhou para a não-Dra.

No meio disto tudo, perdi uma manhã, duas tardes e resolvi o meu problema só com um telefonema. Viva! O que vale é que foram todos muito simpáticos no Centro de Emprego de Setúbal (e estou a falar o mais honesto possível. Todas as pessoas com quem falei, nunca se recusaram a esclarecer-me e mostraram sempre total disponibilidade para me ajudar. Um verdadeiro serviço público. Pena é a confusão de cargos e áreas).

Simplicidade


22 janeiro 2006

Cinco Euros para Votar

Estive a fazer contas (como desempregado aprendi a fazer imensas contas. É impressionante como se consegue esticar o fundo de desemprego. Será que poderíamos pedir a um contabilista desempregado para fazer o Orçamento de Estado? De certeza que o dinheiro esticaria e muito. Púnhamos o défice em ordem num instante!).

OK, estive a fazer contas. Será que votar vale cinco euros? Porque esse era mais ou menos o dinheiro que iria gastar em gasolina para ir assentar a minha cruz (eu morava noutro sítio, antes de vir para aqui. O casamento muda-nos a vida!). Tudo porque ainda não tive tempo (leia-se paciência) para ir tratar do cartão de eleitor.

Sei que não é uma boa atitude de cidadão, aliás eu até acredito que mais vale um voto em branco que uma abstenção. Mas a distância, o dinheiro e o tempo que iria gastar (mais ou menos uma hora e meia de ida e volta, já a contar com o encontrar um lugar e achar a mesa de voto) e o transtorno que iria causar à minha mulher e filha, fez-me pensar que não valia a pena.

Agora que soube os resultados… fiquei arrependido. Não é que achasse que iria mudar alguma coisa (porque as eleições foram feitas para a vitória do Cavaco!), mas fica sempre aquela sensação de impotência...

Entretanto, fiquei a descobrir (graças ao meu talento inato de fazer pesquisas na Internet) que as mulheres dominam a organização de festas dos primeiros aniversários das crianças (a minha faz um ano dia 21 de Fevereiro… Já tinha dito? Ups…)

Então e os pais? Porque é que não há revistas que dão dicas para os pais? Nós também estamos lá na festa, a filha também é nossa, porque tem que ser as nossas mulheres a organizar tudo? (ATENÇÃO: eu confio na minha mulher, achei foi injusto o resultado das minhas pesquisas. Cada vez mais, acredito que os pais em casa, apesar de minoria, são mal vistos pelas revistas femininas…)

11 meses

11 meses. Já se passaram 11 meses. Há um ano (21 de Janeiro, é que comecei a escrever às 23h50, só que isto de criar um blog tem as suas vicissitudes) não suspeitava que 11 meses pudessem comportar tanta coisa: pai, marido, desempregado, desequilibrado, cansado, atarefado, incompreendido, esgotado, gozado, discriminado e apoiado.

1) Pai. Sou pai de uma bebé linda, com os olhos mais puros, inquiridores e meigos que alguma vez vi (cliché, eu sei, mas a esta hora não consigo encontrar forma mais poética para descrever a minha pequerrucha).

2) Marido. Quando pensava que era um bom marido, eis que surge uma bebé para demonstrar o quão estava errado (desculpem lá, mas isto não é um cliché, porque está provado por estudos feitos pelas maiores universidades do mundo que um homem nunca admite que errou).

3) Desempregado. Nas vésperas do nascimento da minha filha (dois/três dias, acho!?), o meu chefe “anunciou-me”, em tom informal, que a empresa não me iria renovar o contrato (óptima notícia! Ainda por cima numa altura em que a cesariana tinha vindo a ser adiada há duas semanas).

4) Desequilibrado. Nunca pensei chegar a este ponto. O stress de arranjar um emprego, de ter um projecto rejeitado, de ajudar a minha mulher, de ver os meus erros expostos, de sucessivos azares, de ter medo, de andar entre picos de ansiedade e de euforia, de tudo …

5) Cansado. Dormir? Para quê? Quando não era por estar na hora da maminha, era por causa da chupeta. Quando não era por causa da chupeta, era porque estava sossegada. Tudo servia para acordar assarapantado (e o pior é que isto continua!). Mas não me queixo, o ser humano habitua-se a tudo…

6) Atarefado. Tudo anda num corrupio. Desde que estou a colaborar com um site de amigos (PUB: www.g4mers.com), que isto anda mais intenso: filha, louça, roupa, filha, vendas, editar, filha, fraldas, cama, filha, arrumar, limpar, filha, boleias, compras, filha, xixi, cocó, filha, banho, gata, mulher e filha (já disse filha?).

7) Incompreendido. Curioso que as pessoas que julgamos mais próximas, são as que menos nos compreendem: pais, mães, avós, amigos, familiares, todos os que nos rodeiam. É incrível como as pessoas se esquecem de como é ter filhos bebés e como é difícil de compreender o que é ter um bebé quando não se tem (eu também já fui assim).

8) Esgotado. Eu já disse como isto é cansativo? Como é stressante? Como é difícil lidar com os que nos são mais próximos e connosco? Como nos causa desequilíbrios? Como é exigente? Como passamos as passas do Algarve (nunca percebi esta expressão idiomática, mas soa-me sempre bem. C’um catano!)?

9) Gozado. Sim, já fui gozado com olhares (só porque passeava orgulhoso a linda mochila cor-de-rosa, com uma tartaruga desenhada, da minha filha), com expressões (as minhas olheiras chegavam aos tornozelos) e com atitudes (digo-vos as atitudes de algumas pessoas só mesmo se for a gozar, porque se não forem… tristes vidas).

10) Discriminado. Será que os nossos queridos governantes e empresários, que prezam tanto o conceito de família, ainda não concluíram que para esse conceito perdurar é necessário aumentar os dias de licença parental e de paternidade. Cinco dias no primeiro mês e quinze dias após da licença de maternidade não servem para nada!

11) Apoiado. Parece surreal, mas fui apoiado. Por quem? Pela minha mulher. Esteve sempre comigo e eu com ela. Não estou a falar de apoio financeiro, de alimentação, nada disso. Estou a falar do psicológico, do emocional. Aqueles que nos sustentam. No fundo, descobrimos que tudo se resume a nós. Milhões de anos de evolução e tudo acaba no casal.

(Este foi longo, mas é porque serviu de contextualização. Os próximos serão mais pequenos. Aliás… não tenho muito tempo.)

21 janeiro 2006

Pureza